Todo mundo sabe que a Dinamarca é um dos países com um dos melhores índices de qualidade de vida do mundo. Mas no meu grupo de amigas estrangeiras que vivem aqui sempre surgem discussões sobre esse assunto. Afinal, o que tem de positivo e o que tem de negativo em morar no país?

À primeira vista, não é difícil se encantar pelo país quando tudo ainda é novidade: a cultura, a arquitetura, os parques e os mutirões de bicicletas por todos os lados. Porém, uma hora essa fase inicial de turista apaixonado termina e chega a hora de desfazer as malas definitivamente para começar a criar raízes.

 

 

Como eu vim morar na Dinamarca

Hoje faz pouco mais de quatro anos que eu vivo nesse pequeno país escandinavo. O motivo que me trouxe aqui, e aliás o que me mantém até hoje, foi o meu marido dinamarquês e a qualidade de vida.

Na época, tomamos essa decisão por ser mais fácil pra mim ser estrangeira na Dinamarca, onde todos falam inglês, do que para o Daniel viver no Brasil, sem saber uma palavra de português e com poucas oportunidades de trabalho em sua área de formação. Aqui, teríamos mais oportunidades, e sem dúvida, melhores condições de vida.

A Dinamarca, no entanto, é um país com leis severas de imigração — desde 2002, foram mais de 68 mudanças significativas na regulamentação que dizem respeito aos imigrantes.

Para casar, por exemplo, nós esperamos mais de um ano para que ambos completássemos 24 anos; depois ainda tivemos que depositar uma quantia de 53 mil coroas (algo como 30 mil reais) como subsídio para minha estadia (que foi devolvido aos poucos conforme eu passava nas provas de dinamarquês) e inclusive comprovar que meu apartamento alugado teria as medidas adequadas pré-estabelecidas pelo governo.

Não tenho como negar, eu amo morar na Dinamarca, mas a vida por aqui, como em todos os lugares, tem seus altos e baixos.

 

 

 

Morar na Dinamarca: adaptação à cultura local

Integração

Eu acredito que quanto mais rápido você se integrar, mais fácil será sua vida. E a primeira barreira para a integração à cultura local é o idioma. O governo, ciente disso, aconselha que todos comecem a aprender a língua o quanto antes e, inclusive, oferece apoio financeiro para a realização de um curso de dinamarquês. Quando eu cheguei em 2014, todo o sistema de educação era gratuito, incluindo materiais, o que me possibilitou estudar durante um ano e meio em período integral, sem trabalhar.

Aprender a língua dinamarquesa não é fácil: a sonoridade é completamente diferente de tudo que já escutamos e muitas das palavras são quase impossíveis de pronunciar. Mas o diferencial de falar o idioma abre muitas portas e ajuda a compreender melhor a cultura local como um todo.

Em seguida, vem algo fundamental para integrar-se na Dinamarca: fazer amigos! É claro que existe a turma brasileira por essas bandas, que você pode facilmente conhecer em eventos e comunidades na internet. É bom para matar a saudade da pátria amada falando português e comendo feijoada, mas viver somente entre brasileiros é uma forma fácil de nos isolar. Nós também queremos fazer amigos dinamarqueses e expandir o network!

O problema é que os dinamarqueses não costumam dar muita abertura às pessoas que não fazem parte do seu círculo de amigos. Muitos relacionamentos na universidade ou no trabalho demoram meses para ultrapassar a barreira de meros conhecidos para o nível colega. Um forma de quebrar o gelo é procurar interesses em comuns para ter um tópico de conversação. Insista em dar bom dia e puxar assunto e não leve comentários sinceros como ofensa. Os dinamarqueses são sarcásticos e muitas vezes falam o que vem na cabeça sem ponderar as palavras.

 

Hábitos culturais

O modo de se comportar dos dinamarqueses é uma das coisas que mais acho curioso no dia a dia. Há várias regrinhas aparentemente sem sentido do tipo: não começar uma conversa com qualquer pessoa com “Oi, tudo bem?”, pois só se faz este tipo de pergunta às pessoas que você realmente tem afinidade. São usuais gestos de respeito e consideração, como tirar o sapato antes de entrar em uma casa ou levar flores ao visitar alguém.

Os dinamarqueses adoram questionar sobre o que você faz, quanto vale o seu imóvel e qual o tamanho dele, mas nunca te perguntam sobre preferências políticas ou religião. Isso porque os dinamarqueses não gostam de conflito.

Compromissos são levados a sério: não existe o papo furado de “vamos combinar de tomar um café qualquer dia desses”. Sugerir um café ou qualquer outro encontro significa realmente pegar o calendário e marcar uma data e horário. E não existe esse negócio de desmarcar em cima da hora ou chegar atrasado. Pontualidade e compromisso são a chave de todo bom relacionamento por aqui.

Além disso, é importante sempre agradecer por tudo. Existe uma série de expressões, quase protocolares, que devem ser ditas para demonstrar reconhecimento. “Tak for mad” é usado para agradecer quem pagou a conta do jantar. “Tak for i dag” para agradecer a oportunidade de um encontro e “Tak for sidst”, dito no encontro seguinte, para demonstrar apreço pela última ocasião em que estiveram juntos. Depois de todo encontro, é lei dizer “Det var hyggeligt”. Essas pequenas gentilezas são muito interessantes pois despertam em nós um sentimento real de gratidão pelos momentos singelos.

Aliás, os dinamarqueses são pessoas simples. Todo a extravagância e os luxos desnecessários são vistos como algo banal. Muitos referem-se à Lei de Jante, uma citação ao código de conduta do criada pelo escritor Aksel Sandemose que, em resumo, proclama de que ninguém é melhor que ninguém.

 

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Morar na Dinamarca: temas sociais

Igualdade de gêneros

Desde meu primeiro dia estudando na Dinamarca, percebi como o assunto “ligestilling” — igualdade de gênero — está presente em todos os lugares  Este foi um tema muito trabalhado em sala de aula, discutido em debates de televisão e evidenciado pelas políticas de um ministério dedicado exclusivamente a direitos iguais entre homens e mulheres.

Prova maior disso é que os homens podem tirar uma licença paternidade tão longa quanto a da mãe. Isto é, os pais têm a possibilidade de definir como bem entenderem quem cuidará das crianças no período de um ano da licença.

Dentro de casa as responsabilidades também são divididas. Nada mais do que justo poder dividir as tarefas de limpeza, as compras do mercado, o pagamento das contas e os cuidados das crianças. No meu relacionamento, por exemplo, nós nos ajudamos o tempo todo.

 

Bem estar social

A sociedade dinamarquesa, apesar da forte característica individualista, pensa sempre em evoluir como sociedade. Por isso, o semblante de orgulho deles quando saem artigos sobre a qualidade de vida e na Dinamarca. Os altos impostos são investidos de maneira a garantir uma vida com direitos iguais a todos.

Para manter esse sistema funcionando, as rendas são tributadas progressivamente, em proporção a quanto cada indivíduo ganha. Você acha que no Brasil os impostos são altos? Aqui eles podem chegar a mais de 50% do valor do salário!

Em contrapartida, todos (até mesmo estrangeiros) podem desfrutar de diversos benefícios, como por exemplo:

  • Sistema de educação gratuito: escolas, universidades, cursos profissionalizantes e pós graduação;
  • Statens Uddannelsesstøtte (S.U.): salário para estudantes;
  • Sistema de saúde gratuito: consultas periódicas, médicos especialistas, terapias e tratamentos;
  • Børncheck: suporte financeiro para famílias com crianças pequenas;
  • Kontanthjælp: seguro desemprego de até dois anos;
  • Plejehjemme: casa de repouso para os idosos.

Para os estrangeiros que não dominam o dinamarquês, há organizações trabalhistas que ajudam a ler contratos empresariais e orientam a como proceder com os impostos e outras questões pessoais.

Todo o apoio do sistema público, apesar de também ter suas falhas, gera uma sentimento de segurança nas pessoas com relação ao futuro, independente da sua condição financeira.

 

Estilo de vida

Aproveitar ao máximo a vida ao ar livre, ter equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, usar a bicicleta como transporte, priorizar alimentos orgânicos e ter uma casa minimalista e funcional. Essas são algumas características que definem o estilo de vida dinamarquês.

O lema que aprendi e coloquei em prática aqui foi dividir um dia de 24h em oito horas pra dormir, oito para trabalhar e oito para atividades pessoais. Com essa mentalidade, sinto que meus dias na Dinamarca são mais leves.

Por todas as profissões serem bem remuneradas, as pessoas têm as mesmas oportunidades e a possibilidade de frequentar os mesmos lugares. Isso também faz com que os indivíduos valorizem qualquer atividade profissional e entendam o seu valor para a sociedade. Mesmo quando isso significa um valor mais alto em serviços como pintura, manutenção da casa e tratamentos estéticos.

Uma consequência dos elevados valores desses serviços é que a maioria dos dinamarqueses desenvolveram a habilidade de do it yourself. Muitos pintam a própria casa, montam os próprios móveis, fazem o próprio bolo de aniversário, quase nunca se submetem a tratamentos de beleza, entre outras coisas.

 

 

 

O lado negativo de morar na Dinamarca

Nem tudo são flores…

Começando que a Dinamarca é um país pequeno, no norte europeu e sem voos diretos para o Brasil, o que torna mais difícil o ir e vir. As viagens não só custam mais caro como também levam mais tempo com as conexões.

O frio também é um dos maiores desafios para nós vindos de um país tropical. Durante a maior parte do ano as temperaturas são baixas, venta muito e, no inverno, os dias são extremamente curtos, com pôr do sol por volta das 16h. Se não nos alimentarmos bem, praticarmos exercício e tomarmos vitaminas, a chance de ter uma depressão é alta. Aliás, isso é bastante comum entre os amigos brasileiros.

E, apesar do sistema de saúde ser gratuito, nem sempre somos tratados com a atenção que recebemos no Brasil. Pode ser demorado conseguir consulta, não podemos falar de mais de um problema por vez, o atendimento é extremamente rápido com pouca investigação de sintomas e tratamentos preventivos.

No quesito integração, ao contrário de muitos brasileiros, fiz muitos bons amigos dinamarqueses. Mas para isso foi necessário largar o inglês de lado e me comunicar apenas em dinamarquês. No início, eu passava horas nos eventos sem falar, apenas tentando captar uma ou outra palavra. Depois comecei a entender melhor, porém dificilmente falava por falta de confiança. Hoje, converso, solto piada, dou risada na hora certa e a convivência com os dinamarqueses é muito mais fácil, porque sei o que e quando falar.